M H Escritora

Escribo para no olvidar.

A ela também a queres?

A ela também a queres?
A ela também a queres? Mabel

—Tu? Queres-me? —perguntou no meio da tempestade.

—Muitíssimo —respondeu ele sem lhe prestar muita atenção.

Os olhos castanhos olharam-no carregados de angústia. Latente, debaixo das pestanas, podia sentir-se o cheiro do medo. Então ele endireitou-se e observou-a.

—Muitíssimo —repetiu como um feitiço.

As palavras ficaram presas na garganta da rapariga. Quem dera houvesse alguma forma de travar as palavras que se acumulavam na sua alma.

Outros olhos, outros lábios, outros corpos, outras mãos, outros detalhes, outras canções, outros acasos, outros prantos, outros risos, outros soluços, outras conversas, outros pormenores, outros gritos, outros silêncios.

Os outros ganhavam vida, forma, espaço, tempo e corpo. Então a pergunta transbordou-lhe da boca.

—A ela? —ganhou fôlego para ganhar coragem e finalmente perguntar —Também a queres?

Merda, pensaram ambos ao mesmo tempo. A pergunta instalara-se entre os dois, criando um espaço, uma barreira, uma quebra. Ambos sabiam que, depois da resposta, nada seria igual.

Ela assustou-se. Porque, ao observar os olhos claros dele, percebeu que ele estava a avaliar a pergunta. Talvez pela primeira vez na vida, aquele questionamento tivesse cruzado a sua mente.

Será que ele nunca se tinha perguntado se queria a outra? Será que jamais lhe passara pela cabeça medir esse carinho? Será que o amor por ela era tão imenso que não se podia contar? Porque se odiava tanto ao ponto de pensar em todas aquelas perguntas?

Ele também se assustou. Querer a ela tinha-se-lhe imposto (às vezes não sabia como explicá-lo, mas isso não significava que querê-la fosse um castigo, talvez fosse algo mais complexo do que isso). Ela era frágil, diminuta e perfumada. Sabia como conquistar e fazer com que o outro se sentisse triunfante. A ele, aquele jogo de poder parecia-lhe divertido, porque o fazia feliz fazê-la sentir-se uma vencedora. Também se tinha prometido cuidar dela (nunca lho dissera, mas fazia-o sempre). Conhecia-a tanto que até intuía as suas dores, antecipando-se a elas para as evitar.

Querer a outra era diferente. Natural como respirar. Estava tão habituado à sua presença que, no dia em que ela faltara, se sentira tão vazio que a tristeza o inundara. Nunca sabia o que a outra pensava; era um mistério de óculos, cabelo despenteado e sobrolho franzido.

Tudo era difícil com a outra: os risos, os prantos, os beijos, os abraços. Tudo era complexo porque tinha sabor a morango, chocolate e culpa. Talvez fosse emocionante descobri-la palmo a palmo e saber que jamais poderia entendê-la por completo. Negra, obscura e fascinante, observando-a lentamente, absorvendo a sua atmosfera, os seus cheiros, os seus medos, os seus choros, os seus dedos, a sua anca e os seus lábios.

Inspirou. Ambos sabiam o que aconteceria. Ele dir-lhe-ia que não podia medir o que sentia pela outra. Sabia exactamente quanto a queria a ela, sabia os limites do seu querer, dos seus afectos e ternuras. Tudo com ela era medido, pensado e meditado (porque ela era frágil). Com a outra tudo era selvagem, dentadas e lutas (porque a outra era forte). Com ela havia promessas de vestidos brancos, de casas e filhos (porque ela era caseira). Com a outra não havia futuro, apenas um emocionante agora cheio de suspiros, erotismo e dedos enterrados. Com ela tudo era uma calma aprazível, idêntica a uma paragem conhecida da qual não precisavas de mapa, porque era impossível perder-se entre tanta familiaridade. Com a outra tudo era idêntico a estar perdido no meio da selva, sabendo-se presa de todos os animais, com os sentidos alerta, disposto a atacar e a devorá-la para sobreviver.

—Não quero —cuspiu ela —já não quero sabê-lo.

Ele sorriu cruelmente, dizendo:

—Não queres mesmo sabê-lo?

Ela sabia que jamais o conheceria por completo. Havia partes obscuras dele às quais ela nunca conseguiria chegar.

Por isso odiava a outra, porque com a outra não havia cuidado, não havia segredos, não havia limites. Se a outra tivesse perguntado, ele ter-lhe-ia respondido sem hesitar. Porque a outra era tão forte que podia suportar tudo. Até estar sem ele.

Ela não conseguia existir num mundo onde ele não a quisesse apenas a ela.

—Não, não preciso de saber.

FIM

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